A guerreira de Birka
Introdução
Neste
presente texto, falaremos sobre a guerreira de Birka, mas antes vamos falar um
pouco sobre a representação das mulheres guerreiras na mitologia escandinava, e
seus precedentes históricos. O imaginário de mulheres guerreiras é algo que a
muito se faz presente, através de pinturas, literatura, música e hoje em dia,
muito através do cinema e da tv, em alguns casos até podemos encontrar exemplos
reais, como Joana D'arc,
por outro lado, nos voltando ao
imaginário, temos exemplos como as Amazonas,
Amazonas, gravura de
Walter Raleigh, 1601.
entretanto não nos alonguemos nestes
exemplos, afinal o nosso foco aqui são as guerreiras mitológicas da Escandinávia
medieval, e neste caso, temos vários exemplos como mostraremos no decorrer
deste texto.
Neste
contexto, temos as Valquírias que são entidades diretamente ligadas a Odin,
Valquírias, por Carl
Emil Doepler, 1905
as valkyrjur, que nos mitos servem como suas donzelas, escolhendo
guerreiros mortos para se juntar a ele em Valhalla (ABRAM, 2019: p. 103), este
trecho é bem adequado para aludirmos o aspecto guerreiro dessas mulheres com
características tão curiosas, porém nos empenhemos nelas em um outro momento;
dessa forma, temos outros exemplos, como as deusas Freyja e Skadi,
Freyja, por John
Bauer, 1905
Njördr e Skadi no caminho para Nóatún, por Friedrich Wilhelm Heine, 1882
que com suas devidas restrições,
como já abordadas em nosso primeiro artigo, podem figurar entre estas; por fim,
há as damas de escudo, Lagertha e Thora Borgarhjört,
Lagertha, por Morris
Meredith Williams, 1913
Thora
Borgarhjört, por Jenny Nyström, 1895
entre estas, Lagertha se destaca em
consequência da atual série de tv do canal History, Vikings, a personagem da
série através de sua intérprete a atriz canadense, Katheryne Winnick,
A atriz Katheryne Winnick como Lagertha na série de tv
Vikings do History Channel
acabou ganhando os corações da
audiência do show, pois mostra uma guerreira nobre e carismática, porém quando
necessário, implacável e destemida, assim, inflamando o imaginário sobre as
mulheres guerreiras ao reforçar a imagem das notáveis damas de escudo.
Entretanto, por mais empolgante que possa parecer, Lagertha é citada apenas em
um dos contos de Saxo Grammatticus, ou seja, fora isso não há qualquer outra
fonte que nos leve a crer que essa guerreira possa ter realmente existido, e
Thora também não está muito longe disso, além do mais, existiam leis
escandinavas que proibiam tanto homens como mulheres transgredirem seus papéis
na sociedade, os quais eram estabelecidos por gênero, entretanto aos
entusiastas da série que podem estar tristes ou decepcionados com tais
afirmativas, pode haver uma luz no fim do túnel, a popularmente chamada,
guerreira de Birka.
A
Guerreira de Birka
No
século XIX, entre os cerca de três mil túmulos escavados no sítio arqueológico
de Birka (Patrimônio Mundial da UNESCO), fora encontrada uma sepultura, que
acabou chamando muita atenção pelos objetos enterrados com a ossada, na câmara
mais especificamente chamada de sepultura Bj.581,
Ilustração de Edvald Hansen Baseada no plano original do
túmulo do escavador Hjalmar Stolpe, publicado em 1889
havia peças de jogo de tabuleiro,
uma faca de combate, flechas, uma lança, um machado, dois escudos, uma espada e
dois cavalos,
mostrando-se assim, que não se
tratava de um simples guerreiro, mas um guerreiro notável, afinal não era
qualquer guerreiro que se enterrava com tanta honra, porém tudo mudou.
A
arqueóloga Anna Kjellström ao analisar as dimensões dos ossos pélvicos e
mandibulares da ossada, percebeu que esses restos mortais não pertenciam a um
homem, ao contrário, pertencia a uma mulher. Ela então apresenta sua descoberta
em uma conferência na qual obviamente recebe uma enxurrada de críticas, as
quais diziam que ela poderia ter analisado ossos de túmulos diferentes ou algo
do tipo, ainda assim ela persiste e publica seu estudo em 2016, o qual não
cessa seus críticos, porém em 2017 seus algozes são surpreendidos, pois
Charlotte Hedenstierna-Jonson, liderando uma equipe de arqueólogos da Universidade
de Uppsala, vão em auxílio de Anna e fazem testes de DNA na ossada do túmulo
Bj.581, portanto comprovando assim, que a ossada de fato pertencia a uma
mulher, ou seja, uma guerreira.
Em
artigo publicado em 2018, Anna e Charlotte, junto a sua equipe, debatem as
teorias sobre a possibilidade da descoberta se tratar realmente de uma
guerreira; é importante percebermos que a comprovação genética dos ossos se
referirem a uma mulher, não é o suficiente para podermos afirmar que ela possa
ter sido realmente uma guerreira, afinal até onde sabemos existe a
possibilidade da disposição de sua sepultura não corresponder a sua realidade
em vida, essa mulher pode ter sido enterrada dessa forma por ser uma princesa,
ou possuir outro status social tão importante quanto, além disso, os
precedentes históricos como bem sabemos, não contam muito a favor dela, por
outro lado, não há como dizer que não seria possível, não com toda certeza ao
menos, pois as próprias evidências encontradas em Birka e seus precedentes
históricos, pode nos trazer luz a essa possibilidade de acordo com as
arqueólogas.
Planta do centro do mercado da ilha na Era Viking em Birka, mostrando a área de assentamento da Terra Negra, os cemitérios circundantes e a localização da sepultura Bj.581 fora dos portões do forte da colina (figura preparada por Charlotte Hedenstierna-Jonson).
Birka,
desabitada a cerca de mil anos, é uma região a oeste da atual Estocolmo,
capital da Suécia, que já tivera seu auge entre os séculos VIII e X, pois fora
um dos principais centros comerciais da Escandinávia; foram encontradas moedas
árabes, e outros objetos de diversas regiões, durante as escavações arqueológicas,
como da Rússia, Bizâncio e Germânia,
além de também exportar mercadorias a partir do Mar Báltico, Hedeby que
era uma importante cidade de domínio dinamarquês ao norte da atual Alemanha era
um exemplo desse comércio,
assim, mostrando o potencial
mercantil de Birka, que obviamente por esses termos possuía contatos com
diversas culturas, não à toa foram encontradas sepulturas de estrangeiros, o
que reforça essa afirmação, assim podemos supor, que se teria alguma
possibilidade de existir uma mulher que transgrediria a ordem social
escandinava a ponto de se tornar uma guerreira, esta seria uma habitante de
Birka, pois os contatos multiculturais poderiam levar não só essa mulher a
pensar como tal, como também levar a população dessa cidade a provavelmente não
achar tão estranho a existência desta, e quem sabe até permitir que ela
comandasse um exército, o que pode ter sido o caso da guerreira de Birka, afinal
o jogo de tabuleiro era usado por estrategistas de guerra,
Seleção das peças de jogo do túmulo da câmara Bj.581
(fotografia de Charlotte Hedenstierna-Jonson)
a espada era de confecção muito
cara, portanto símbolo de grande poder econômico, assim como o cavalo, e no
caso dela, foram enterrados dois cavalos, ou seja, se de fato essa mulher desempenhou
esse papel, ela fora uma guerreira notável,
O ocupante do Bj.581, reconstruído como uma grande guerreira de alto status. Os detalhes das roupas são baseados nos materiais encontrados na sepultura de Birka e nas sepulturas contemporâneas de Moshchevaya Balka no Norte do Cáucasu (Knauer 2001) (desenho de Tancredi Valeri).
como as mitológicas damas de escudo,
e se assim for, ela poderá revolucionar os estudos sobre a Escandinávia
medieval.
Referências
ABRAM, Christopher. Mitos do norte
pagão: Os deuses dos nórdicos; tradução de Renan Marques Birro. Petrópolis: Rio
de Janeiro: Vozes, 2019, p. 103.
OLIVEIRA, Leandro Vilar. Birka. In:
LANGER, Johnni (org.). Dicionário de história e cultura da era viking. São
Paulo: Hedra, 2018, p. 103, 104, 105.
GRAMMATICUS, Saxo; ERLENDSSON,
Haukr; outros. As histórias de Ragnar Lodbrok; tradução Artur Avelar. 2ª ed.
Belo Horizonte, MG, 2018
STURLUSON, Snorri. Edda em Prosa:
Gylfaginning e Skáldskaparmál; tradução Artur Avelar. 2ª ed. Belo Horizonte,
MG, 2018
Texto de autoria de Felipe P. Almeida, graduando em licenciatura em História pela Universidade Federal do Pará














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