A guerreira de Birka

 

Introdução

                               Neste presente texto, falaremos sobre a guerreira de Birka, mas antes vamos falar um pouco sobre a representação das mulheres guerreiras na mitologia escandinava, e seus precedentes históricos. O imaginário de mulheres guerreiras é algo que a muito se faz presente, através de pinturas, literatura, música e hoje em dia, muito através do cinema e da tv, em alguns casos até podemos encontrar exemplos reais, como Joana D'arc,

Joana D`Arc, por John Everett Millais, 1865

por outro lado, nos voltando ao imaginário, temos exemplos como as Amazonas,

Amazonas, gravura de Walter Raleigh, 1601.

entretanto não nos alonguemos nestes exemplos, afinal o nosso foco aqui são as guerreiras mitológicas da Escandinávia medieval, e neste caso, temos vários exemplos como mostraremos no decorrer deste texto.

                               Neste contexto, temos as Valquírias que são entidades diretamente ligadas a Odin,

Valquírias, por Carl Emil Doepler, 1905

as valkyrjur, que nos mitos servem como suas donzelas, escolhendo guerreiros mortos para se juntar a ele em Valhalla (ABRAM, 2019: p. 103), este trecho é bem adequado para aludirmos o aspecto guerreiro dessas mulheres com características tão curiosas, porém nos empenhemos nelas em um outro momento; dessa forma, temos outros exemplos, como as deusas Freyja e Skadi,

Freyja, por John Bauer, 1905


Njördr e Skadi no caminho para Nóatún, por Friedrich Wilhelm Heine, 1882

que com suas devidas restrições, como já abordadas em nosso primeiro artigo, podem figurar entre estas; por fim, há as damas de escudo, Lagertha e Thora Borgarhjört,

Lagertha, por Morris Meredith Williams, 1913

Thora Borgarhjört, por Jenny Nyström, 1895

entre estas, Lagertha se destaca em consequência da atual série de tv do canal History, Vikings, a personagem da série através de sua intérprete a atriz canadense, Katheryne Winnick,

A atriz Katheryne Winnick como Lagertha na série de tv Vikings do History Channel

acabou ganhando os corações da audiência do show, pois mostra uma guerreira nobre e carismática, porém quando necessário, implacável e destemida, assim, inflamando o imaginário sobre as mulheres guerreiras ao reforçar a imagem das notáveis damas de escudo. Entretanto, por mais empolgante que possa parecer, Lagertha é citada apenas em um dos contos de Saxo Grammatticus, ou seja, fora isso não há qualquer outra fonte que nos leve a crer que essa guerreira possa ter realmente existido, e Thora também não está muito longe disso, além do mais, existiam leis escandinavas que proibiam tanto homens como mulheres transgredirem seus papéis na sociedade, os quais eram estabelecidos por gênero, entretanto aos entusiastas da série que podem estar tristes ou decepcionados com tais afirmativas, pode haver uma luz no fim do túnel, a popularmente chamada, guerreira de Birka.

A Guerreira de Birka

                               No século XIX, entre os cerca de três mil túmulos escavados no sítio arqueológico de Birka (Patrimônio Mundial da UNESCO), fora encontrada uma sepultura, que acabou chamando muita atenção pelos objetos enterrados com a ossada, na câmara mais especificamente chamada de sepultura Bj.581,

Ilustração de Edvald Hansen Baseada no plano original do túmulo do escavador Hjalmar Stolpe, publicado em 1889

havia peças de jogo de tabuleiro, uma faca de combate, flechas, uma lança, um machado, dois escudos, uma espada e dois cavalos,

 


Armas do túmulo Bj.581: uma espada, um machado e uma faca de combate, duas lanças, dois escudos e 25 flechas (fotografia de Christer Ahlin, Museu de História Sueca).

mostrando-se assim, que não se tratava de um simples guerreiro, mas um guerreiro notável, afinal não era qualquer guerreiro que se enterrava com tanta honra, porém tudo mudou.

                               A arqueóloga Anna Kjellström ao analisar as dimensões dos ossos pélvicos e mandibulares da ossada, percebeu que esses restos mortais não pertenciam a um homem, ao contrário, pertencia a uma mulher. Ela então apresenta sua descoberta em uma conferência na qual obviamente recebe uma enxurrada de críticas, as quais diziam que ela poderia ter analisado ossos de túmulos diferentes ou algo do tipo, ainda assim ela persiste e publica seu estudo em 2016, o qual não cessa seus críticos, porém em 2017 seus algozes são surpreendidos, pois Charlotte Hedenstierna-Jonson, liderando uma equipe de arqueólogos da Universidade de Uppsala, vão em auxílio de Anna e fazem testes de DNA na ossada do túmulo Bj.581, portanto comprovando assim, que a ossada de fato pertencia a uma mulher, ou seja, uma guerreira.

                               Em artigo publicado em 2018, Anna e Charlotte, junto a sua equipe, debatem as teorias sobre a possibilidade da descoberta se tratar realmente de uma guerreira; é importante percebermos que a comprovação genética dos ossos se referirem a uma mulher, não é o suficiente para podermos afirmar que ela possa ter sido realmente uma guerreira, afinal até onde sabemos existe a possibilidade da disposição de sua sepultura não corresponder a sua realidade em vida, essa mulher pode ter sido enterrada dessa forma por ser uma princesa, ou possuir outro status social tão importante quanto, além disso, os precedentes históricos como bem sabemos, não contam muito a favor dela, por outro lado, não há como dizer que não seria possível, não com toda certeza ao menos, pois as próprias evidências encontradas em Birka e seus precedentes históricos, pode nos trazer luz a essa possibilidade de acordo com as arqueólogas.

Planta do centro do mercado da ilha na Era Viking em Birka, mostrando a área de assentamento da Terra Negra, os cemitérios circundantes e a localização da sepultura Bj.581 fora dos portões do forte da colina (figura preparada por Charlotte Hedenstierna-Jonson).

                               Birka, desabitada a cerca de mil anos, é uma região a oeste da atual Estocolmo, capital da Suécia, que já tivera seu auge entre os séculos VIII e X, pois fora um dos principais centros comerciais da Escandinávia; foram encontradas moedas árabes, e outros objetos de diversas regiões, durante as escavações arqueológicas, como da Rússia, Bizâncio e Germânia,  além de também exportar mercadorias a partir do Mar Báltico, Hedeby que era uma importante cidade de domínio dinamarquês ao norte da atual Alemanha era um exemplo desse comércio,

Rotas comerciais das cidades e assentamentos escandinavos no Mar Báltico

assim, mostrando o potencial mercantil de Birka, que obviamente por esses termos possuía contatos com diversas culturas, não à toa foram encontradas sepulturas de estrangeiros, o que reforça essa afirmação, assim podemos supor, que se teria alguma possibilidade de existir uma mulher que transgrediria a ordem social escandinava a ponto de se tornar uma guerreira, esta seria uma habitante de Birka, pois os contatos multiculturais poderiam levar não só essa mulher a pensar como tal, como também levar a população dessa cidade a provavelmente não achar tão estranho a existência desta, e quem sabe até permitir que ela comandasse um exército, o que pode ter sido o caso da guerreira de Birka, afinal o jogo de tabuleiro era usado por estrategistas de guerra,

Seleção das peças de jogo do túmulo da câmara Bj.581 (fotografia de Charlotte Hedenstierna-Jonson)

a espada era de confecção muito cara, portanto símbolo de grande poder econômico, assim como o cavalo, e no caso dela, foram enterrados dois cavalos, ou seja, se de fato essa mulher desempenhou esse papel, ela fora uma guerreira notável,

O ocupante do Bj.581, reconstruído como uma grande guerreira de alto status. Os detalhes das roupas são baseados nos materiais encontrados na sepultura de Birka e nas sepulturas contemporâneas de Moshchevaya Balka no Norte do Cáucasu (Knauer 2001) (desenho de Tancredi Valeri).

como as mitológicas damas de escudo, e se assim for, ela poderá revolucionar os estudos sobre a Escandinávia medieval.

 

Referências

ABRAM, Christopher. Mitos do norte pagão: Os deuses dos nórdicos; tradução de Renan Marques Birro. Petrópolis: Rio de Janeiro: Vozes, 2019, p. 103.

OLIVEIRA, Leandro Vilar. Birka. In: LANGER, Johnni (org.). Dicionário de história e cultura da era viking. São Paulo: Hedra, 2018, p. 103, 104, 105.

GRAMMATICUS, Saxo; ERLENDSSON, Haukr; outros. As histórias de Ragnar Lodbrok; tradução Artur Avelar. 2ª ed. Belo Horizonte, MG, 2018

STURLUSON, Snorri. Edda em Prosa: Gylfaginning e Skáldskaparmál; tradução Artur Avelar. 2ª ed. Belo Horizonte, MG, 2018


Texto de autoria de Felipe P. Almeida, graduando em licenciatura em História pela Universidade Federal do Pará

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