Freyja e Skadi

 


Introdução

            Neste texto falaremos sobre duas grandes deusas da mitologia escandinava medieval, Freyja e Skadi, e suas relações com a guerra, mas para que possamos entender melhor essa relação, faremos um breve contexto sobre algumas raças deste mundo e as características com foco nas duas deusas. Na mitologia nórdica, existiam cinco raças centrais, os Jötnar ou gigantes, os Aesires como as divindades soberanas, os Vanires em terceira ordem, além dos Álfar ou elfos, e os Dvergar anões, estes dois últimos, deixaremos para uma outra publicação a qual lhes será dado um maior destaque.

Jötnar

            Os Jötnar são seres mais voltados a natureza, a criação e expressão de origem cósmica, e ao contrário do que a cultura popular reforça, são seres muito sábios, porém é claro que não podemos desvincular sua imagem de episódios caóticos, exemplo que provam a sabedoria dos Jötnar temos a seguir, sobre a cabeça do gigante Mímir e sua sabedoria, além das gigantas com sua capacidade profética.



Os gigantes agarram Freyja, ilustração para a ópera O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner

Aesires          

            Os Aesir são deuses mais voltados a guerra e a regência das leis, são os soberanos, a exemplo destes, estão Odin, Thor e Baldr, sobre os Aesir também não vamos nos aprofundar muito, Em decorrência de Freyja ser de origem Vanir e Skadi Jötunn



Baldr morto, por Christoffer Wilhelm Eckersberg (1817)

Vanires

            Já os Vanir são deuses voltados a fertilidade, possuindo maior relação com os campos, as chuva, ou seja, a sazonalidade; é importante também ressaltarmos a relação desses deuses com o seidr, pois como veremos a seguir, os Aesir só passam a ter contato com essa magia a partir dos ensinamentos de Freyja, além de possivelmente ter sido o motivo do conflito entre esses deuses.

A Guerra Primordial

            Entre os dois grupos de deuses, Aesires e Vanires, ouve uma grande guerra conhecida como a guerra primordial, esse evento é narrado em diversas sagas como, a Ynglinga saga, Gylfaginning, Skáldskaparmál, Völuspá e o Gesta Danorum de Saxo Grammatticus, assim entre batalhas e diversos episódios, a guerra só tivera um fim com a troca de reféns entre os deuses, e entre os que ficam com os Aesir estão, Njördr e seus filhos Freyr e Freyja, como exposto por John Lindow em sua tradução da Ynglinga saga,

Odin foi a guerra contra os vanir, mas eles se defenderam bem a si mesmos e às suas terras, e nenhum lado conseguiu alcançar alguma vantagem. Eles concordaram em um compromisso e trocaram reféns. Os vanir enviaram os seus homens mais distintos, Njörd e Frey, e os aesir enviaram, em troca, Hoenir, que disseram ser um grande líder. e Mímir, que era muito sábio. Em resposta, os vanir enviaram Kvasir, que também era muito sábio. Hoenir se provou incapaz de exercer liderança sem a consulta de Mímir, de modo que os vanir, suspeitando terem sido enganados, decapitaram Mímir e enviaram a cabeça a Odin. Odin guardou a cabeça e ela lhe contou muitas coisas ocultas. Os aesir transformaram Njörd  e Frey em líderes de culto. Freyja, a filha de Njörd, foi a que primeiro ensinou o seid aos aesir. O incesto entre irmãos, que tinha sido comum entre os vanir, foi abolido entre os aesir.

 



Os Aesir contra os Vanir (1882), por Karl Ehrenberg.

Skadi

            Entre os deuses existiam alguns de origem Jötunn, e Skadi é um exemplo destes, filha de Thjazi, ela se armou para a guerra em direção aos deuses buscando vingança pela morte de seu pai, os deuses porém se recusam em lutar com ela, e lhe propõem um acordo, eles permitiriam que ela desposasse um dos deuses, com a condição de que ela o fizesse, escolhendo-o a partir de seus pés, porém Skadi tomada pelo luto e sede vingança, aceita o acordo com a condição ao qual os deuses a fizessem rir, afinal essa era uma estratégia dela para conseguir sua vingança, pois quem haveria de rir em luto? Entretanto os deuses aceitam o seu termo e tal função acaba ficando a cargo do deus da trapaça Loki, o deus então amarra as  suas genitálias a barba de um bode, e então, puxando-se em direção contrária ao animal até seu limite de dor, ele cai gemendo aos pés da giganta que rir, e assim acaba tendo que cumprir sua parte no acordo.



Skadi escolhendo seu marido, por Louis Huard (1871)

 

    Skadi então vai a escolha de seu marido nos termos dos deuses, e já que iria manter sua palavra, ela resolveu procurar os pés mais jovens e belos, os quais definitivamente só poderiam ser de Baldr, considerado o mais belo e magnifico de todos os deuses do panteão nórdico, porém a Jötunn acaba se enganando e escolhendo os pés de Njördr, representado como um deus velho, assim como Odin, ainda assim ela cumpri sua palavra e o desposa,



O desejo de Njördr pelo mar, por William Gersham Collingwoold

assim vinculada aos Aesir, tal qual seu marido, esta torna-se, diga-se de passagem, uma das três principais deusas da mitologia nórdica, a qual uma das três é a própria deusa mãe Frigg, mas então, qual seria a relação de Skadi e Freyja com a guerra? Podemos dizer inicialmente que suas contribuições para tal são mais indiretas do que diretas, afinal, o deus da guerra escandinavo é o próprio pai de todos Odin, o que é claro não quer dizer que as deusas não tenham essa relação, e é o que mostrarei no decorrer deste texto. 

    Skadi é uma deusa voltada a vida selvagem, aos campos e as montanhas de gelo, na estância 51 do Lokasenna, ela e chamada de deusa-do-sapato-de-neve, tais referências se complementam a sua descrição com um arco e flecha caçando feras selvagens em Thrymheimr, morada de seu pai, e assim na falta de um deus ou deusa formalmente voltado a caça na cultura escandinava, podemos considera-la como tal.



Skadi, autor desconhecido

            Além da busca por vingança pela morte dele, que mostra ainda mais o seu potencial marcial, sem contar que ela é uma giganta, as quais em muitas sagas aparecem combatendo os deuses e feras, o que diz muito sobre a força física dos Jötnar,  mas isso levaria a um outro debate sobre essas exceções, e esse não é o foco desse texto, afinal a força física não é um fator determinante para considerar Skadi uma deusa guerreira, além disso, dado os diversos conflitos existentes entre os deuses e os Jötnar, é difícil desvincularmos esses seres da guerra.

Freyja

            Por último, mas nem um pouco menos importante temos Freyja, conhecida como deusa do sexo da fertilidade e da magia, irmã de Freyr e filha Njördr; só podemos entender seu caráter marcial a partir da imagem do javali, isso mesmo, uma análise proposta por Hélio Pires, o qual chama os Vanires de deuses dos javalis, ou seja, deuses da fertilidade e da abundância, mas também da guerra, comparando o animal aos deuses de Vanaheim, a exemplo disso, Freyr é sempre descrito montado em um javali,



 Freyr, por Johannes Gehrts (1091)

 

e Freyja apesar de ser representada em um trenó puxados por gatos,



Freyja em sua carruagem, por Carl Emil Doepler (1905)

no poema édico Hyndluljód temos uma referência ao seu javali chamado Hildsvíni ou “suíno de batalha”,



Aninhada por seu javali Hidisvíni, Freyja gesticula para um Jötunn em uma ilustração, por Lorenz Frolich (1895)



Reclinada em cima de seu javali Hidisvíni, Freyja visita Hyndla em uma ilustração, por Lorenz Frolich (1895)

além disso é dito que na guerra primordial, os Vanires usavam sua magia, o seidr para vencer algumas batalhas, mostrando que esses deuses e portanto, sua mais importante representante Freyja, não podem ser simplesmente vistos como deuses da fertilidade, possuindo mais de um exemplo que mostra a sua relação também com a guerra.

Conclusão

            Neste texto pudemos perceber o quão plural e complexos são os deuses do panteão nórdico medieval, a ponto de nos possibilitar mostrar duas fortes e destemidas deusas com características tão distintas e ao mesmo tempo semelhantes, e ainda assim não tão aprofundadas, pois como dito no início, nos comprometemos a demostrar suas características marciais. Ao refletirmos sobre a sua importância, vemos Skadi por exemplo, fazendo uma inversão sobre os papeis de gênero na sociedade escandinava medieval estabelecida, pois ao buscar vingança pela morte de seu pai, esta acaba por desempenhar um papel normalmente atribuído aos homens dessa sociedade; Freyja por outro lado, ao receber em seu palácio Folkvangr metade dos mortos, os quais ela divide com Odin, nos mostra que sua relação marcial vai além da guerra, ao possuir poder também sobre os mortos, além de ser notável na dominação do seidr, magia esta, levada aos Aesir por ela, como visto anteriormente, portanto podemos dizer que Freyja equipara-se a Odin em aspectos gerais de poder e relevância, não à toa, é a principal deusa da mitologia nórdica.

Bibliografia:

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BARREIRO, Santiago. Elfos (Álfar). In: LANGER, Johnni (org.). Dicionário de mitologia nórdica: Símbolos, mitos e ritos. São Paulo: Hedra, 2015, p. 154, 155.

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LANGER, Johnni. Gigantas. In: LANGER, Johnni (org.). Dicionário de mitologia nórdica: Símbolos, mitos e ritos. São Paulo: Hedra, 2015, p. 210, 211.

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LINDOW, John. O livro da mitologia nórdica; tradução de Lukas Gabriel Grzybowski. Petrópolis: Rio de Janeiro: Vozes, 2019, p. 68, 69, 70, 163, 164, 165, 166, 194, 195, 196, 197, 226, 250, 251, 252, 253, 338, 339, 343, 344, 345.

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PIRES, Hélio. Vaningi: O javali e a identidade dos Vanir. Revista Brasileira de História das Religiões. In: ANPUH, Ano VIII, n. 23,  Setembro/Dezembro de 2015

STURLUSON, Snorri. Edda em Prosa: Gylfaginning e Skáldskaparmál; tradução Artur Avelar. 2ª ed. Belo Horizonte, Minas Gerais, 2018


Texto de autoria de Felipe P. Almeida, graduando em licenciatura em história na Universidade Federal do Pará

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