O Estupro de Rinda
Neste
artigo falaremos sobre o estupro de Rinda, a partir da vigança de Odin pela morte
de seu filho Baldr, portanto neste caso, abordaremos a versão de Saxo
Grammaticus do mito de Baldr, afinal nas demais versões, como a de Snorri
Sturluson não há qualquer menção a estupro, além disso as circunstâncias da
morte do filho de Odin são outras, envolvendo Loki como o principal responsável
por tal ato e Hödr como um deus cego e irmão de Baldr, entretanto antes de
adentrarmos especificamente nesta versão, faremos um breve resumo sobre o papel
da mulher na escandinavia medieval.
Saxo Grammaticus, por Louis Moe, 1907
A
Mulher na Sociedade Escandinava Medieval
A
sociedade escandinava medieval, diferente do que se possa pensar ao colocarmos
referências cinematográficos, televisivos e literários, não fugia muito do
modelo patriarcal das socieades do período, porém isso não excluía a
importância da mulher para a manutenção da vida nessa civilização. As mulheres
escandinavas possuiam funções voltadas ao ambiente doméstico em geral,
mas também possuiam alguns direitos, como por exemplo a autoridade de pedir o divórcio se o marido não mais a satisfisesse sexualmente, ou algo do tipo, e o mais interessante disso é que a imagem manchada nessa situação era a do homem e não da mulher, além do mais, este homem teria de entregar parte de seus bens para a agora ex esposa, o divórcio inclusive era uma ameaça muito usada por essas mulheres quando estas queriam algo do marido ou buscavam incitá-los a algum combate armado, como vingança ou algo do gênero, a propósito isso era uma forma delas participarem da guerra já que não podiam ser guerreiras; as mulheres escandinavas do período também podiam não aceitar beijos ou qualquer outro tipo de galanteios se assim desejassem, e esses "assédios" como chamamos hoje, poderiam ter como consequências, o pagamento de multas pelo autor desses crimes a família da mulher "assediada", e dessa mesma forma, também se figurava os efeitos da violência sexual, porém neste caso, a punição para tal transgressão era a morte, afinal atentar contra a vida e a pureza da mulher nessa sociedade, era uma grande desonra a sua família,
A filha do viking, por Frederick Stuart Church, 1887
dessa forma, um famíliar homem
respaldado por lei, podia dar cabo deste homem, e novamente reforçando, em
nenhum desses casos a mulher tornava-se uma pária, muito pelo contrário, ela
mantinha-se respeitada na sociedade, o contrário de agressor que era execrado,
além de trazer desonra também, a sua família.
O
Estupro na Sociedade Escandinava Medieval
Como
havíamos adiantado no inicio deste texto, não qualquer registro nas sagas e
poemas nórdicos sobre estupro, se não, a versão de Saxo Grammaticus sobre a morte
de Baldr e sua consequência, o que pode ser claramente um reflexo do quão esse
ato era repudiado pelos escandinavos, por outro lado, isso não significaria que
estes nunca teriam cometido violência sexual em algum momento, afinal se
traçarmos um paralelo com nosso tempo presente, saberiamos apontar diversos
exemplos em que as nossas leis não foram empecílhos para barrar crimes hediondos,
não á toa existem alguns indicios que apontam para estupros realizados pelos
vikings, após saques em mulheres tomadas como escravas, entretanto isso não é
uma regra como a cultura popular estereotipou e portanto tornando a palavra
viking quase que um sinônimo de estupro, por outro lado, é interessante
observarmos que a abominação do estupro por parte dos escandinavos parece se
aplicar apenas as suas mulheres, ou seja, quando havia alguma excessão estas
ocorriam em mulheres estrangeiras capturadas para a escravidão, entretanto essa
seção tem o objetivo de contextualizar essas excessões para que possamos
compreender o canário para o estupro de Rinda, e as discussões que levariam a
concluir isso ou aquilo de uma área de pesquisa
com fontes fragmentárias e outras tardias, podem ficar para um outro
momento a custo de deixar este texto um tanto enfadonho e esse não é no foco.
Balderus
e Hotherus batalham pela mão de Nanna
Saxo
Grammaticus em sua versão da morte de Baldr, nos trás Balderus (Baldr) e
Hotherus (Hödr) como rivais, pois os dois desejam desposar Nanna (esposa de
Baldr nas demais versões),
O deus Baldr e sua esposa Nanna, por Friedrich Wilhelm Heine, 1882
dessa forma, a história tem inicio
com Baldr pedindo sua mão em casamento, porém ela se recusa em casar com ele
declarando que semideuses e humanos são incompatíveis, em seguida, é Hotherus
(Hödr) quem a pede em casamento, mas essa também o recusa por temer a íra de
Balderus,
As flechas não aingem Baldr, por Elmer Boyd Smith, 1902
assim, Hotherus vendo que o único
empecilho para desposar Nanna é o próprio Balder, vai em auxílio de "donzelas
da floresta" (em paralelo as valquírias) que o instruem a buscar uma
espada magica, este assim o faz, e ao adquirir a espada vai em batalha contra
Balderus, Hotherus então vence o conflito ao cortar o cabo do Mjölnir, o
martelo de Thor, que junto ao seu portador era o símbolo da força bruta dos
deuses,
Thor combatendo a serpente Jörmungandr, por Johann Heinrich Füssli, 1790
o vencedor por conseguinte acaba
desposando Nanna; entretanto, Balderus atormentado por sonhos com a amada,
acaba indo uma segunda vez a batalha contra seu rival, e dessa vez conseguindo
a vitória, porém uma vitória insatisfatória pois não possuía a mão de sua
amada; Hotherus por sua vez, não aceitando a derrota, vai novamente em busca do
auxílio das "donzelas da floresta", estas então o instruem sobre a
força de Balderus ser oriunda de sua alimentação, Hotherus então entra
sorrateiramente no acanpamento dos deuses e acaba por sabotar o alimento de seu
adversário, este portanto vai a uma terceira batalha contra Balderus,
entretanto o que o semideus não sabia é que estava em pé de igualdade com seu
inimigo, e assim acaba por ser trespaçado com a espada magica de Hotherus em
seu peito; tombara então o filho de Odin, agonizante ficara por três dias, e só então perecera.
O
Estupro de Rinda
Odin
pai de todos estava em luto, e seu luto expressava-se em sede de vingança pela
morte de seu filho mais amado, e então inquieto fora buscar conselhos de uma
feiticeira, ele então perguntara como iria vingar a morte de Baldr, esta por
sua vez o instruira a conceber um filho com a princesa Rinda, pois este viria a
vingar seu irmão um dia,
Odin portanto inicia seu plano de
vingança, vai em auxílio do pai da princesa Rinda em uma batalha, e ao vencer
esta, o deus vangloria-se com o intuito de impressiona-la, entretanto não
consegue nada além de um tapa da princesa ao tentar beija-la; insistente, Odin
atribui-se de seus talentos metalúrgicos, muito importante nesta mitologia, e
cria um bracelete, dito como uma das mais belas jóias já criadas, este então a
presenteia, e em troca, ganha um tapa no pé da orelha; na terceira tentativa
ele usa de seu poder de transformação para ficar mais jovem, pois ele soube que
Rinda havia dito que sentia-se enojada só em pensar de fazer sexo com um velho,
afinal assim ele era representado,
entretanto ainda que galantemente
montado em um cavalo, Rinda o derruba quando mais uma vez ele tenta roubá-la um
beijo; enfurecido, tomado pela vingança, Odin lança um feitiço na princesa que
a deixa acamada, usando assim seu poder de transformação novamente, ele se
disfarça de curandeira e vai em auxílio da princesa, adentrando os aposentos de
Rinda, a "curandeira" diz ao pai desta que existia apenas uma cura
para a sua enfermidade, um remédio tão amargo que ela só poderia tomá-lo nua, a
"curandeira" recebe autorização para tal, e assim esta dá o remédio
para Rinda, Odin então aproveitando-se da vunerabilidade da princesa que estava
dopada, a estupra, e em consequência desse lamentável ato, a princesa Rinda
engravida de Bous (Váli nas demais versões) que um dia irar vingar a morte de
seu irmão Balderus.
Conclusão
Após
o estupro sofrido por Rinda, podemos observar que a atitude de Odin não fica
impune, a partir do que o próprio Saxo Grammaticus expõe em sua versão dessa
história, portanto como consequência pelo ato de Odin, os deuses não
concordando com sua atitude vergonhosa para com Rinda, acabam por exila-lo,
afinal ele trouxera desonra a ordem dos deuses, e assim também as pessoas
descrentes desde os atos de Odin vão deixando de adorar os deuses, aqui portanto
encontramos dois paralelos importantíssímos de se analisar, o primeiro é com as
leis escandinavas que pudemos conhecer no início deste artigo, onde os
escandinavos possuíam leis que proibiam o estupro, assim como acaba ocorrendo
como podemos perceber a partir da atitude dos deuses para com Odin, o segundo paralelo se dá com o próprio
Ragnarök,
Batalha dos deuses condenados, por Friedrich Wilhelm Heine, 1882
pois como observamos anteriormente
as pessoas deixam de adorar os deuses após o ato de Odin, mais um relação com
as leis escandinavas, porém neste caso o que ocorre é que ao deixarem de adorar
os deuses, estes deixam de existir por não serem mais cultuados, ou seja, o
crepúsculo dos deuses, o fim do mundo pagão nórdico, o Ragnarök.
Referências
ABRAM, Christopher. Mitos do norte
pagão: Os deuses dos nórdicos; tradução de Renan Marques Birro. Petrópolis: Rio
de Janeiro: Vozes, 2019, p. 276, 277, 278, 279, 280, 281.
CAMPOS, Luciana. Mulheres. In:
LANGER, Johnni (org.). Dicionário de história e cultura da era viking. São
Paulo: Hedra, 2018, p. 513, 514, 515, 516, 517.
LINDOW, John. O livro da mitologia
nórdica; tradução de Lukas Gabriel Grzybowski. Petrópolis: Rio de Janeiro:
Vozes, 2019, p. 231, 232.
MALTAURO, Marlon Ângelo. Balder. In:
LANGER, Johnni (org.). Dicionário de mitologia nórdica: Símbolos, mitos e
ritos. São Paulo: Hedra, 2015, p. 53, 54, 55.
http://neve2012.blogspot.com/2015/04/mitografos-da-escandinavia-medieval.html?m=0
Texto de autoria de Felipe P. Almeida










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